Crítica - O Espetacular Homem-Aranha


Por Arthur Melo 
Hollywood se renova. Quando não o faz em sua tecnologia ou em sua linguagem, faz com suas histórias. Tarde ou cedo, todo produto que um dia tenha gerado milhões de dólares voltará a ser o centro das atenções. Inocente quem imaginou que com o Homem-Aranha seria diferente. E é razoável quem acusa o reboot do herói nas telas de desnecessário (mas o que vem ou não a ser necessário, hoje, é extremamente relativo), considerando o espaço de cinco anos desde a última passada de Peter Parker pelas telas. Nada, entretanto, significa que O Espetacular Homem-Aranhaseria obrigatoriamente ruim ou pelo menos inferior em relação ao primeiro filme lançado em 2002, sob as mãos de Sam Raimi. Isso porque, de fato, não é nenhum dos dois.
Agora tutelado pelo amor de todo projeto-de-hipster, Marc Webb, diretor de (500) Dias com Ela, o Homem-Aranha (o personagem) reaparece mais desenvolto e mais bem incorporado em um longa que exerce duas funções: passar um corretivo no arranhão à imagem causado pelo terceiro filme da trilogia anterior e recontar, à maneira de umremake, o surgimento do herói de uma forma muito melhor no que tange o personagem. O Espetacular Homem-Aranha é, independente da aceitação dos fãs ranzinzas (que parecem só se revoltarem com este lançamento porque já havia uma história anterior em curso, sem nem se preocuparem em aguardar para verificar se este resultado conseguiria ser ainda melhor), superior ao primeiro filme.
Agora, Mary Jane não é mais o amor platônico de Peter Parker, mas sim Gwen Stacy (que inutilmente deu as caras no terceiro longa da “antiga” série). E Norman Osborn, o futuro Duende Verde, é apenas uma sombra que indiretamente atenta ao juízo do Dr. Connors, o Lagarto. O esqueleto da trama, contudo, segue quase que num passo a passo o já narrado em 2002: Peter Parker é picado por uma aranha geneticamente modificada que lhe confere os poderes que o transformam em um vigilante justiceiro e, posteriormente, um herói. E justamente por se tratar de um percurso conhecido não só nas HQs, como dentro das telas, o longa precisa se renovar.
Os melhores quesitos de O Espetacular Homem-Aranha estão no que procura se distanciar do primeiro filme e se aproximar das páginas da Marvel. A começar pelo casal protagonista. “Vocês vão amar Andrew Garfield”, frase do diretor à época da divulgação do nome do substituto de Tobey Maguire, não poderia ter sido mais premonitória. Garfield é exatamente tudo de que o personagem precisa: um adolescente, antes de mais nada. Seu desempenho como o Amigo da Vizinhança é incomparável. Seja em quaisquer momentos de Peter Parker, o ator é seguro, preciso e muito pouco se esforça para ganhar o convencimento, exatamente o que é seguido por Emma Stone em nível de atuação; ambos entregam uma química perfeita em cena que potencializa o carisma dos personagens como indivíduos ou como casal. Muito diferente de um mero herói e sua inconstante e frágil mocinha, Garfield e Stone agem como um time de atuação, assim como são seus personagens na trama. Diferente destes é Rhys Ifans. Se houve solidez com os protagonistas, o mesmo não se pode dizer do trabalho de Ifans e dos roteiristas na definição do vilão. Chega a causar estranhamento o modo autoafirmativo com que o Dr. Connors surge em sua primeira aparição, dando claros sinais de overacting (o popular “exagero de atuação”). Ainda, é notória a despenca dessa imagem durante o desenrolar da história. Não é preciso se esforçar tanto para atentar ao desequilíbrio de Connors e da construção do vilão. Surge, nisto, um inimigo multifacetado que não as expõe com clareza, dando prioridade apenas às situações que catalisam o surgimento do Lagarto e seu embate com o Homem-Aranha, mas nada que desenvolva sabiamente o Dr. por trás do réptil – seus atos ao final do clímax compravam isso.
Para sua glória, as preocupações do filme não recaem apenas nos agentes da trama. O que, para um filme de ação, jamais seriam o suficiente para um sucesso comercial, mas uma junção destes com o espírito do filme sempre deve haver. Talvez por isso a trilha sonora do oscarizado James Horner funcione magnificamente bem. Já na abertura (rápida e muito boa) é imediata a conquista de uma melodia simples e harmônica, que se transforma no novo tema da série e acompanha o filme com uma eficiência nata delineando os momentos mais dramáticos. E, exceto pelo 3D quase irrelevante, a técnica flui muito bem. Os voos do Homem-Aranha agora são mais baseados em movimentos de parkour e menos nos processadores do time de CGI – que também funcionam muito bem. Mas o grande casamento se dá pelas ideias de Marc Webb e do diretor de fotografia John Schwartzman. Os quadros panorâmicos estão muito mais ativos dessa vez, não só para enfatizar a periculosidade dos saltos do herói entre os prédios, mas para montar um painel que demonstra a imensidão de uma Nova York que parece estar sempre voltada contra o Homem-Aranha. É interessante, então, notar detalhes que agradam visualmente e colaboram para indicar o status do personagem, como o misto de cores da iluminação do tráfego com o reflexo noturno nos prédios, criando um contraste que relembra nas ruas o padrão do uniforme de Peter Parker, quando a cidade já está a seu favor no clímax. Isso sem mencionar as excelentes tomadas do herói que esbarram nas melhores ilustrações do Homem-Aranha em suas páginas impressas, quando pela primeira vez a franquia acerta o tom (visual) dos quadrinhos. Ou, ainda, alterações como excluir todas as características deselegantes de filmes B (o carimbo de Sam Raimi – há quem goste) e substituí-las por pequenas sutilezas, como um garoto que se senta com pernas cruzadas no chão do próprio quarto, à figura de uma criança, e estuda um a um, enfileirados metodicamente, os objetos de um pai que se foi, bem como fazer da sobreposição de persianas com uma TV ao fundo a literalidade de algo que está sendo dito por um locutor da emissora.
Se analisada sob determinado olhar, a realização de O Espetacular Homem-Aranha é mesmo desnecessária. O que não significa que o filme não possa ser apreciado e preferido (há diversos aspectos em que ele supera seus antecessores). Até porque se o necessário para aproveitá-lo é apagar momentaneamente da cabeça a existência de uma história semelhante que já estava relativamente adiantada, então não há tanto problema. Afinal, tem quem ainda desligue o cérebro para aproveitar parcerias incansáveis entre nomes populares nos cinemas ou para curtir amontoados de ferro se digladiando. Prioridades.
The Amazing Spider-Man (EUA, 2012). Ação. Columbia Pictures.
Direção: Marc Webb
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Sally Field.