As Cenas Mais Marcantes de 'Avenida Brasil'

FÊNOMENO DE 2012

Texto do site RD1: Falta pouco, bem pouco. Eu diria pouco até demais para uma das melhores coisas já antes produzidas na televisão brasileira acabar. Sim, meu povo! A dor da despedida é grande, mas precisamos ficar lado a lado, pois não vai ser toda noite que a gente vai poder dançar com tudo mais. Avenida Brasil entrou na sua reta final e, com isso, todos entramos num turbilhão de emoções, mergulhados em ansiedade e sofrimento com os últimos capítulos, as últimas cenas da trama.
Oi Oi Oi
E, por falar em cenas, se teve uma coisa que a novela de João Emanuel Carneiro soube levar ao ar de melhor, foram cenas deliciosas e delirantes, arrasadoras, sufocantes, hilárias, aterrorizantes. Faltam adjetivos para caracterizar um folhetim onde cenas que já entraram para o seleto grupo de “clássicas” explodiram aos montes diante de nossos olhos encantados e presos a todo aquele universo mágico que se descortinava a cada dia nas nossas telas da tv, do computadortablet, celular, enfim.
É até difícil (diria eu impossível) criar um ranking, devido aos diferentes sentimentos que várias cenas causaram aos telespectadores. Tentaremos aqui não tratar da última para a primeira, ou da primeira para a última em ordem cronológica inflexível. A novela toda merece ocupar o lugar mais alto de um pódio, no qual apenas a raça dos autores vencedorescomo o querido João, pode ser colocada.
RITINHA: LARGADA NO LIXÃO E GUARDADA EM MEU CORAÇÃO!
Um doce de atriz, e talvez uma peste de personagem (porém encantadora), nos sucumbiram nos primeiros dias. Mel Maia, fazendo a Ritinha da primeira fase da novela, deu vida e carisma a pobre garota maltratada e abandonada no lixão por Carminha e Max, logo após a perda trágica do seu querido pai Genésio, feito em uma breve participação por Tony Ramos.
Entregue aos cuidados de Seu Nilo, e adotada pela Mãe Lucinda, Ritinha viu uma pseudo-descrença na vida ser substituída pelo afeto.
Ritinha vê o amor desabrochar em um local, no mínimo, inusitado. A candura dos jovens pombinhos traz poesia para um lixão idealizado, longe do que se percebe realmente nos lixões país afora.
O SEQUESTRO DE CARMINHA
Carminha bolou mais golpes durante a novela que muito político de cara limpa e ficha suja espalhado por aí. Mas, sem dúvida, a sequência do seu forjado e, depois, real sequestro é daquele tipo de momento de um folhetim de parar pra agradecer a Deus por estar diante de tudo aquilo.
Das falas e das tiradas, passando pelas caras e bocas de Adriana Esteves, tudo foi quase que irretocável.
O BANHO DE PISCINA DE SEU NILO
Talvez desde Luisa Marilac tomando seus bons drink, uma pessoa dentro de uma piscina fosse tão interessante e divertida de se ver. Seu Nilo lavou a alma nessa cena, fazendo de uma ato infantil uma delícia de momento da novela.
A AULA DE HISTÓRIA
Juro por Deus que essa cena me fez rir mais do que as últimas edições do Zorra Total que eu tive a infelicidade de ter visto. Adauto, com sempre, foi o autor das mais belas e cômicas pérolas. Todos os atores envolvidos arrancaram gargalhadas frenéticas em um momento leve de uma casa que, em linhas gerais, sempre foi o cenário dos momentos mais dramáticos e sofríveis.
O ATAQUE DE CARMINHA
Uma farsa descoberta. O espírito de sobrevivência falando mais alto. Uma cova aberta. Uma fotografia e fundo musical de cinema. Uma cena pra ficar nos arquivos como exemplo de flerte fabulosamente executado entre a televisão e o cinema.
Lá embaixo estava ela, a até então Nina, descoberta àquela altura como sendo a Ritinha de tempos atrás. De abandonada no sujo lixão, ela passa a jogada numa suja cova. A face do terror e os gritos horripilantes saltam da tela nesse dia.
Lá em cima, Carminha, com sua roupa branca e sua alma escura. A deusa com ares de diabo surge no ápice da veia maléfica de sua personagem, superior a toda circunstância, sedenta de raiva, sublime em suas falas. Carminha não pode dar um fim na raça de Nina, pois ainda estava muito cedo pra trama entre as duas ter um ponto final.
E no meio de tudo isso, estávamos nós, sufocados e atônitos, diante de um primor de encenação que nos fez questionar se ainda seria possível Avenida Brasil nos chocar, no melhor entendimento da palavra.
Saída da cova, parcialmente limpa da terra pela água da chuva, ressurgida das cinzas tal qual uma Fênix. Nina juntou forças e provas, e foi fazer aquilo que se propôs em fazer desde que se entende por gente: VINGANÇA.
O TROCO DE NINA
Fantasmagórica e fabulosamente! É assim que Nina, agora já percebida por Carminha como Rita, dá um susto na megera, e um banho de atuação no seu retorno triunfal à mansão de Tufão. Os humilhados serão exaltados!
Dizem que a vingança é uma iguaria da qual se delicia fria. E quando essa iguaria é servida pela principal razão de toda a sua fúria vingativa, talvez ganhe um tempero ainda melhor. E foi dessa forma que Nina apreciou sua refeição que, tal qual a cena, também foi dos deuses!
ME SERVE, VADIA! Esse grito ecoou pelo bairro do Divino, pela Avenida Brasil, pelas redes sociais, pelo mundo, por que não exagerar, né?
A CRISE E A FUGA EXISTENCIAL DE CARMINHA
Carminha perdera seu chão. Carminha perdeu a direção do carro. Carminha perdeu as rédeas da situação. Carminha ganhou todos os motivos para fugir. Carminha perdeu a lucidez, ou a ganhou? Saiu pelo mundo desnorteada, descrente na vida.
Entre goles de cachaça, ela soltava pílulas de reflexão. Questionou a humanidade, fazendo de sua personagem um ser mais humano do que fictício na novela. Ela pediu pro motorista TOCAR PRO INFERNO, e acabou levando todos nós para o CÉU, no qual Adriana Esteves, e nunca mais sairá enquanto atriz.
SEU NILO E O CIRCO DOS HORRORES
Mais um contorno cinematográfico e brilhante, dado a um momento que poderia passar abatido como apenas mais uma cena, mas que alçou um voo maior do que se esperava em virtude de uma, das muitas, atuações divinas de José de Abreu. Apoteótico e assustador, Seu Nilo surge em meio à penumbra para pregar um susto em Débora, mas acaba levando com ela todos nós a essa sensação.
O FIM DE UMA DUPLA! O PONTO FINAL DOS AMANTES! A DERROCADA DE CARMINHA E O ATESTADO DE ÓBITO DO MAX
Os laços haviam sido cortados. A fidelidade canina entre Carminha e Max havia dado lugar a necessidade de se manter vivo no jogo de interesses do qual ambos eram peças que, até então, se necessitavam na disputa, tal qual aliados numa guerra; mas que, com o passar do tempo e desenrolar dos fatos, mudou por completo. As fotos foram expostas. O pior lado de Carminha havia sido exposto de forma material, palpável, visível. As feridas de um amor bandido estavam expostas.
Max dava uma “banana” para uma família na qual sempre foi o coadjuvante minimizado, visto sempre como uma pessoa para se ter um pé atrás. Max dava todos os motivos para todos ali presentes desejarem sua morte. Max cumpria com o seu papel de semeador da discórdia. Sua despedida da casa era um prenúncio da sua própria despedida da vida.
Carminha tentou reverter a situação fazendo aquilo que soube fazer a trama quase toda, que era se fazer de vítima para Tufão e companhia. A história pra boi dormir não colou. O boi tinha acordado, como o próprio Tufão anunciara. Não sobrava mais nada para Carminha do que sobrar uns tapas na sua cara. Mas estamos falando de Carminha RAÇA DOS VENCEDORES, aquela que perde tudo, mas também quer ver tudo se perdendo.
Ela saiu abalada da casa, mas soube deixar as estruturas da casa abaladas dizendo poucas e boas verdades. Adauto, Muricy e Leleco bem sabem disso.
Carminha perde a casa, a moral, a postura, o manto de santa imaculada. Carminha ganha inimigos. Carminha encarna a Maria Madalena moderna, julgada e apedrejada, moralmente falando, pelos transeuntes das ruas do bairro do Divino e pelos telespectadores da Avenida Brasil.
Max volta para o lixão, de onde fez de tudo para sair, e para onde queria levar Carminha de volta. Ele regressou com Carminha. Max regressou na própria trajetória da novela, e TOCOU PARA O INFERNO com Carminha a bordo. Max realmente fez do lixão um inferno. Ele colocou fogo no inferno, literalmente. Ele colocou fogo na novela, brilhantemente.
Max apontou, apertou o gatilho, e disparou meio mundo de verdades, entre focos de incêndio e sentimentos de personagens em chamas.
Max levou duros golpes da vida. Mas também deu grandes golpes pra se dar bem na vida. Nada mais irônico do que um duro golpe de enxada por fim a sua vida de golpes sujos. Eis que Max aparece morto, sujo de sangue, mas talvez de alma limpa por ter aberto os olhos da família de Tufão para a real natureza de Carminha.
É de seu paizinho, Seu Santiago, que venha a natureza desvirtuada de Carminha. Todos os traumas e cicatrizes de Carminha devam se originar daí. O ar de nojo e repudio que a filha sente do pai deixa a entender que Carminha teve, desde a mais tenra idade, que lhe dar com o lado mais perverso e inescrupuloso da vida. Carminha deve ter vivido o amor às avessas. O desafeto, o culto ao proibido, a lei dos mais fortes sobreviverem devem ter regido seu destino por muito tempo, desviando qualquer criatura, na novela e na vida real, do eixo normal de evolução psicológica.
O LAMENTO DURANTE UMA LENTA MORTE DE SEU NILO
Seu Nilo também teve uma vida de cão. Comeu o pão que o diabo amassou e o presunto que Seu Santiago lhe ofereceu. Bebeu tudo do bom e do melhor, e também bebeu aquilo que tinha, mesmo que da pior qualidade. Bebeu inclusive o antidoto de sua vida de cão.
Seu Nilo abriu a boca, esbravejou. Trouxe em flashbacks o começo dos transtornos e tragédias que marcaram as vidas de Mãe Lucinda e Carminha.
Enquanto ele agonizou, eu também agonizava. Morria aos poucos um personagem que, com tão pouco, nos fazia rir, mesmo que fosse em meio a sua desgraça. Esse era o ar de sua graça. Esse era seu olhar antes da morte. Esse era Seu Nilo. Esse é apenas o desvencilhar de um último capítulo de uma novela para a qual não quero dar adeus!